Palavras aos Vento

Decidi ir beber um café ao Restaurante Coutada. Sábado de manhã.

Parei numa pequena feira da ladra que estava armada junto aos correios.

Tentando ouvir uma conversa de um grupo ( a conversa interessava-me, mas não é para este espaço), parei junto a um vendedor de nã-sei-o-quê. Fingindo apreciar as bugigangas que vendia.

Tocaste-me no ombro, chamando-me amigo. Olhei para ti e sorri, dei-te os bons dias, e perguntei o que fazias alí.

Então não vês? Vendo livros.

Olhei e voltei-te a sorrir. Esvoaçavam as folhas dos teus livros, não uma ou duas, mas todas. Perguntei-te se podia tirar uma fotografia à tua banca.

Disseste-me que gozava com o teu sofrimento. Já tinhas fumado meio maço de ventil com os nervos que sentias por ver assim, ao vento, os teus livros.

Deixa estar - disse-te - que o vento leve os teus livros e os espalhe pelo mundo.

Agora sorrias tu.

Queres ver algum? Tenho aqui umas coisas que te podem interessar.

Descartando a pornografia cientifica, e outros do género, escolhi quatro.

Dois teus,

um de xadrez para a minha Beatriz e um outro que agora não interessa.

Não tinha dinheiro, mas prometi que se fossemos beber um café, passaria por uma caixa multibanco.

Mas tu já não aguentavas ver os teus livros ao vento.

Sabes Pedro, disseste-me tu, há uns que não prestam, mas são todos livros, e não merecem ser assim tratados. Vou arrumá-los.

E assim, um por um, abriste as folhas, sacudiste a terra e colocaste-os no teu saco.

Enquanto isso contaste-me as histórias de todos eles.

Olha, este aqui é da década de oitenta...tem dois poemas meus...
No dia em que recebi o livro na minha casa, descobri que era coisa de velhos saudosistas...arranquei logo os meus poemas. Não quero os meus poemas neste livro.

Lá fomos. Já há muito que não te via.

Estás na mesma, Louco e Puro como sempre. Portador de uma inteligência que é notoriamente genial.

Disse-te que agora tinha um laboratório de fotografia, lá em casa, na cave...largaste, acto continuo, uma piada sobre químicos e ácidos. Pois claro.

Mas disseste-me também que agora sais no Expresso, que vêm de Universidades para te estudar e á tua Poesia.

Falaste-me até que houve uma investigadora que te entrevistou um dia inteiro. E tu a tentar levá-la para outras paragens igualmente irracionais.

Um dia inteiro.

Antes nem dois minutos te queriam ao pé. Incomodavas, não ficavas bem nas mesas dos amigos.

Também é verdade amigo... quando vinhas com o guarda chuva nos dias de Sol... Ou a falar dos mundos que, a pés juntos, juravas existirem em Marte... não era fácil.

Mas na manhã de Sábado gostei de falar contigo. Já há muito que não me agradava tanto uma conversa.

Continua a distribuir os teus cadernos de poesia e contra-cultura. Continua a incomodar.

Um dia olharão para ti e entenderão o teu valor, a tua genialidade.

E nesse dia todos exclamarão um rendondo e longo....

Ahhhh....quem diria.


" Se é lamentável
a existência de homens que
nunca na vida pararam para pensar,
mais lamentável ainda é que hajam tantos
que depois de terem aprendido a pensar
nunca mais pararam
para sentir"

Pedro Águas




Inaugurei a minha máquina normal


Há uns tempos atrás, falei-vos de uma pequena máquina que construí. (aqui)

Hoje, ao chegar a Beja, decidi tirar a primeira fotografia com ela.

Coloquei o papel fotográfico...

Abri o obturador durante 40 minutos.

Retirei o papel, digitalizei a imagem e inverti-a.

Inaugurata est!

Vou sair para fotografar

Esquecido que está o triste episódio dos líquidos, das emulsões, das contaminações e oxidações dos químicos....

Encomendadas que estão as novas poções...

Vou sair para fotografar....


Num dos bolsos um euro para beber café....

No outro um maço de tabaco.

Às costas um tripé improvisado, e uma mochila

Dentro da mochila uma máquina fotográfica feita de uma lata de graxa.

Dentro da lata um rolo fotográfico a preto e branco

Na carteira uma tabela de conversão de f22 para f290.

Nas costas uma dor

Na cabeça uma incerteza.

Vou sair para fotografar...

O que é que se passou?

Decidi inaugurar o meu pequeno laboratório.

Dois rolos carregados com filme a preto e branco esperavam que os mergulhasse em liquidos reveladores e fixadores.

Até fiz a solução com água destilada, ligeiramente aquecida para que o Revelador estivesse a 23º.

É verdade que o revelador estava amarelado...mas prossegui.

É verdade que em vez dos 10 minutos deixei que ele actuasse por 12 minutos...

Mas não esperava que no fim fossem para o lixo 72 fotografias....

O filme estava transparente...completamente transparente....

Não entendo o que se passou....

Aguardo a ajuda do Mário Nogueira

ou do Sr. Espinho da Loja....

PS - Agradeço ao Mário Nogueira os comentários que seguiram via email. Já encomendei um novo Revelador.
Mas amigo Mário...suspeito que o erro tenha sido ainda mais grosseiro do que parece à primeira vista....
Como no laboratório não tenho fonte de água, transportei uma tina cheia dela (água). E julgo que deitei um resto de fixador usado lá para dentro. E julgo que utilizei essa solução para enxaguar o filme que se encontrava dentro do tambor, antes de colocar o revelador...
Sim, é muito triste mesmo.


Mas, eu pecador me confesso. Minha culpa, minha culpa, minha grande culpa...

De comboio ia....

Fotografia Estenopeica


No comboio ia para as Férias de Verão...quando estava calor.

No Comboio ia para as aulas...quando ia.

No comboio fazia amigos de 4 horas...quando calhava.

No comboio bebia cerveja fresca de lata...quando havia.

No comboio tocava viola...quando me apetecia.

No comboio dormia...quando não dormia.

No comboio não ia...quando o perdia.

pouca terra..pouca terra...pu. pu.



O comboio faz-me lembrar tudo o que é infantil em mim.

Não consigo separar a minha infância, e até a minha infantilidade, de uma boa e velha carruagem de 2ª classe do Inter-Regional Grândola- Vila Real de Santo António


Está Sol

Voltou o sol.

Voltou a luz.

O Revelador já está a 23º.

Para breve novas fotografias.

O Porquê das Coisas Simples

Fotografia Estenopeica da antiga Alfândega do Peixe de Vila Real de Santo António


Às vezes pergunto-me sobre qual a origem de certas coisas.

Por exemplo, a Cidade de Vila Real de Santo António, encontra a sua justificação neste velho Edifício.

E nós?