sexta-feira, 25 de junho de 2010

Baile de São João e outras cavalgadas

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Festa que fazem os moiros
Em dia de S. João
Quando os moiros o festejam
Que fará quem é cristão


in Mestre, Joaquim M. Figueira e Toucinho, Maria José - 
Uma antiga tradição de Beja " A cavalgada da Manhã do dia de S. João Baptista


Em 1835 terminava em Beja a tradição da cavalgada de S. João Baptista. Festa antiga, pré-cristã, solsticial, sob o signo do sol, da água e da terra.

A cavalgada, segundo a obra referida, consistia num cortejo a cavalo, precedido da bandeira real e de numeroso publico a pé ( na manhã de S. João), partindo da casa do Juiz ou do Alferes que guardava a bandeira ( ponto inicial era a praça). De seguida dirigiam-se ao tanque dos cavalos, pela estrada do Alcoforado. 

 In obra referida, pag 10

O tanque encontrava-se decorado com muita verdura e flores, formando uma alameda ( abóbada verde) por onde os cavaleiros passavam. Ai eram brindados com um grupo de músicos com charamelas ( instrumento de sopro).

Este grupo de músicos acompanharia o grupo de cavaleiros até à cidade. Junto ao tanque estava uma mesa com muitos doces.

Depois de comerem os doces, enramavam-se com a verdura, que tinha sido colocada na noite anterior pelos "ortelois" do tanque. Ou seja pelos agricultores que se serviam da água desse tanque.

Assim disfarçados dirigiam-se à praça onde eram presenteados com novo banquete. 

Daqui seguiam para o convento de Santa Clara ( actual cemitério).

. In obra referida, pag 11

Aí assistiam a missa em louvor de S. João. 

Voltavam depois à praça ( uma terceira vez) onde se envolviam em torneios, escaramuças e outros jogos equestres. 
Pela tarde "novos folguedos" que constavam normalmente de corridas de touros. Se por acaso não houvesse touros para fazer a corrida, a cavalgada dirigia-se novamente à horta de Santa Clara onde as religiosas lhes davam um copo de água de vinho , frutas e doces.

E assim foi até 1835.

Sem preocupações de maior investigação do que aquela que Joaquim Mestre e Maria toucinho fizeram a este propósito, deixo aqui  a este propósito um curioso, e avulso comentário que se encontra na Doçaria Conventual do Alentejo, em que Alfredo Saramago fala, sem abordar pela perspectiva da Cavalgada ( porque o registo consultado é de outro âmbito ), de uma tourada organizada pelo convento de Santa Clara: "

No convento de Santa Clara, em Beja, as freiras organizaram uma tourada nos claustros e, depois de servirem uma ceia lautissima, até de madrugada «houve nefandos crimes contra a pureza». Nesta ocasião o bispo de Beja, que tinha sido chamado ao convento, foi impedido de entrar". 

Repara-se que nesta Cavalgada, de tradição pré-cristã, a única referência Cristã a S. João é uma missa. 

Tudo o resto é dedicado a jogos, banquetes, música. Fazendo lembrar mais os cultos solstíciais.
S. João Baptista, assumiu o lugar do solstício de verão das antigas tradições, ditas pagãs. 
As fogueiras, reforçam esta ligação entre João e o Sol, ditando que as suas festividades  ainda hoje se façam  sob o signo daquele astro.
As touradas, enquanto símbolo da luta entre o caos e a ordem, presente por exemplo, nas antigas iniciações de Mitra, reforçam esta dualidade entre o homem e as adversas forças da natureza.

Muito se poderia falar.  Poder-se-ia falar da ligação entre estas e as festas dionisíacas da primavera, da Páscoa, do papel de João , o percursor e o facto de ter nascido ( tradicionalmente )precisamente 6 meses antes de Jesus. 

Mas a arte do autor fica por aqui. 

Como também fica o repto para a reactivação destas festividades.

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