domingo, 17 de outubro de 2010

As margens que nos comprimem



Cianótipo ( invertido digitalmente ) por Pedro Horta


Tinha uns 13 anos quando ao entrar no Conselho Directivo de uma escola vi um cartaz:

Todos apontam o dedo ao rio furioso que, com a sua força, tudo vai derrubando à sua passagem...mas ninguém olha para as margens que o comprimem". O cartaz que ocupava meia parede era ilustrado com um rio tumultuoso comprimido em pequeno leito.

Olhei e naquele dia percebi muita coisa.

Tinha uns 30 anos quando comecei a fazer processos de ex-combatentes da Guerra Colonial. Entendi o significado de facto traumático. Observei os seus efeitos, que por vezes se manifestaram dezenas de anos após terem ocorrido.

Homens destroçados incompreendidos pelos outros e por eles mesmos. 

Por vezes lembro-me de uma tarde em que tinha 13 anos.


Na semana passada soube que o Carlos ( nome ficticio ) havia roubado a Mulher ( entidade ficticia ) que o ajudara. 

A principio não o entendi.

Depois soube que dormia na rua, que o pai está preso por homicídio, que o amarrava e batia quando era pequeno e que a mãe é alcoolica.

Então lembrei-me de uma tarde em que tinha treze anos
Então lembrei-me de dezenas de processos que fiz.

E então compreendi.


A facilidade com que empurramos os outros quando apenas nos pedem ajuda.
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