segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

A minha outra casa

Fotografia Estenopeica da rua que se vê da varanda da minha casa


É raro ir à minha outra casa.

É mesmo muito raro. Vou lá de tempos a tempos.

De tal forma que não me apercebo do funcionamento daquele prédio, que, qual organismo vivo, parece dotado de vida própria.

Comprei lá o apartamento porque precisava de continuar a ir à terra.
Comprei lá o apartamento porque apresentava o preço mais compativel com o meu pobre orçamento.

Mas tem uma vista extraordinária sobre a avenida.
Uma avenida de acácias, em todos os sentidos.

Por ser tão barato, não deveria ser dificil de perceber a vizinhança que ia ter.
Decerto que não seriam os lavradores da terra que lá iriam morar.

Foi assim, com satisfação, que vi que a Maria ( aqui neste post elas são todas Marias e eles todos Pedros) tinha lá comprado casa.
Não a via há uns bons 10 anos. Soube que agora era um quadro do PCP

Veio o meu amigo Pedro que está na GNR. Amigo de longa data. Casou com uma Maria que tinha 2 filhos do anterior casamento, aos quais ele deu mais um irmão.

Veio a Maria e o Pedro que foram morar para o res-do-chão. ele de jornal debaixo do braço, chapéu à marinheiro, do estilo reformado-antecipado, por necessidade de boa-vida. Ela a condizer claro.

Veio o Pedro, Pintor, moço simples que recusa pagar o condominio porque " não concorda com o Preço". Soube que tem o carro penhorado e que vai a tribunal porque diz-se que disse ao Administrador do condominio que lhe "passava com as rodas do carro por cima". Tem uma esposa e uma filha que volta e meia são ameçadas pelos credores...

Veio o Pedro e a Maria do último andar que nunca lá estão.

Veio a Maria, que tem um filho e que é lésbica. Costuma dar umas festas para as vizinhas dos prédios do lado. A GNR foi lá há pouco tempo, chamada pelo Pedro e pela Maria que moram à minha frente. Diz-se que a festa estava tão boa, por volta das três da manhã, que até se ouviam os "geradores"( palavras do pedro pintor). Foi presa nessa noite, porque apareceu à porta vestida com a Roupa da Trancada ( palavras de pedro pintor) a fumar uma charutada ( palavras de pedro pintor e que significam charro).

Tambem veio morar a Maria dos Rés do Chão que limpa as escadas do prédio e que às sextas feiras faz iscas lá em casa. Há quem espezinhe o prédio com merda só para a massacrar.
Diz-se que conhece as nossas vidas melhor do que nós próprios.

Tambem veio uma velha que não fala a ninguem e não sei quem é, nem em que apartamento vive. divirto-me a desejar-lhe bom-dia, sabendo de antemão que isso a irrita e que não vai responder.

Não interessa.

Viemos todos...Cada um com uma pancada pior que a dos outros todos juntos.

Ninguém gosta de ninguém. Todos culpam o construtor. Diz-se que poupou nos acabamentos.
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