terça-feira, 5 de abril de 2011

Fotografar com uma lata de sardinhas



Publico e divulgo um artigo da Mara Martins, Jornalista da nossa praça, que um dia me perguntou o que era fotografar com uma lata de sardinhas.






"Têm um gosto especial por câmaras fotográficas artesanais que, muitas vezes, eles próprios constroem, resultando em máquinas de toda a espécie. Se um dia vir uma pessoa com uma lata de sardinhas apontada a um monumento, não se assuste. É uma pinhole.

Pode ser conhecida por dois nomes: fotografia estenopeica – do grego stenopo, pequeno furo ou, mais vulgarmente, pinhole – do inglês pin-hole, “buraco de alfinete”. A sua origem, tal como de toda a fotografia, vem da câmara escura, invenção no campo da óptica, que consiste na ideia de que se tivermos uma caixa com completa ausência de luz no seu interior e lhe fizermos um pequeno furo, será possível ter a realidade exterior projectada no interior da caixa.
A fotografia estenopeica é assim a que se aproxima mais deste conceito, pois só acrescenta a colocação de um papel ou filme fotográfico no seu interior. “Na minha opinião deve ser utilizada como um dos recursos para se entender a fotografia, o seu nascimento e percurso”, explica José Reis, designer gráfico. “Ao ler os princípios da câmara escura reparei que esta seria a forma mais natural de obter imagens”, refere Pedro Horta, oficial da Força Aérea.
Sendo esta a base de todas as outras formas de fotografia, é também a mais simples. “Li um artigo sobre o tema e nesse mesmo dia procurei planos de construção, furei uma lata de feijões e tirei uma fotografia”, conta Pedro Horta. José Reis tinha cerca de quinze anos quando foi a uma exposição de fotografia pinhole de Regina Alvarez. Quando chegou a casa construiu uma igual à que ela apresentava: “Fui à despensa e encontrei uma lata de chá. Esvaziei-a à socapa da minha mãe e construí a minha primeira câmara”, revela.
O material é fácil de arranjar e barato, na maioria das vezes “lixo” reutilizado e passível de ser reciclado. Assim nascem câmaras fotográficas do que antes eram latas de sardinhas ou de rebuçados, caixas de fósforos e de sapatos. Mas também podem ser mais sofisticadas, construídas com madeira, contraplacado ou plástico, ou mesmo máquinas convencionais adaptadas. O importante é que o tamanho do furo seja proporcional à distância focal (espaço entre furo e lado da caixa onde imagem é projectada), para se conseguir obter uma fotografia nítida e focada. No limite, existem tabelas de cálculo para um resultado preciso.
Assim, o problema não parece estar tanto em construir as câmaras, mas sim em sair com elas à rua. “Sou uma pessoa recatada e torna-se difícil sair com uma lata de sardinhas e começar a fotografar. Em Évora fui chamado de louco em plena Praça do Giraldo”, conta Pedro Horta. José Reis teve uma experiência semelhante: “Lembro-me da vergonha que passei quando fui tirar uma fotografia junto à ponte D. Luís, no Porto. A cara de espanto e de desconfiança das pessoas ao verem-me apontar uma caixa de madeira em cima de um tripé”.
O limite é a imaginação
António Leal, fotógrafo e professor no Instituto Português de Fotografia, destaca na fotografia estenopeica a possibilidade de se decidir o formato das imagens, “sem a sujeição à «ditadura do formato»”, explica. “Ela abre as portas a toda a exposição das nossas opções e decisões. É mais nossa”. É caracterizada também pela sua simplicidade, imprevisibilidade dos resultados e potencialidades estéticas. Sem um visor por onde se “espreitar” e com a possibilidade de se fazer distorções e efeitos, o resultado é sempre uma surpresa. “É a magia da fotografia estenopeica”, revela Pedro Horta.
O único limite da fotografia pinhole parece ser mesmo o uso da imaginação. Esta está presente na construção das próprias câmaras, pois podem ir da mais insignificante caixa até mesmo a um quarto ou carrinha. “Construí uma câmara escura utilizando o meu quarto”, conta José Reis. Basta ter uns plásticos pretos opacos e calafetar muito bem portas e janelas, para que o quarto fique absolutamente sem luz. “No meio da janela fiz um buraquinho no plástico com o diâmetro de uma moeda de 10 ou 20 cêntimos. Depois a imagem da rua forma-se na parede oposta à janela”.
A possibilidade de escolha dos temas fotografados também é infinita. Como nas câmaras convencionais, com uma pinhole tudo pode ser fotografado. Apenas é preciso ter paciência para o tempo que demoram as exposições, que pode ir de poucos segundos até mais de uma hora, e adequá-lo à quantidade de luz do local e ao tamanho da câmara. Mas também se pode recorrer à imaginação na criação de efeitos. Um papel curvado origina distorções e a criação de mais do que um furo na câmara dá lugar a imagens sobrepostas e duplicadas, por exemplo.
O fundamental é praticar. Fazer muitas experiências, com materiais, tempos de exposição, enquadramentos, efeitos estéticos. Este tipo de arte é, sobretudo, experimental, e para melhores resultados apela mesmo à anotação desses elementos técnicos e comparação dos mesmos e das fotografias obtidas. “As opções de trabalho que proporciona são tão variadas que destacaria o que, para mim, resume o processo fotográfico em si: aprender”, refere António Leal.
Sensibilizar os mais novos para o tema da fotografia
Para os praticantes de fotografia pinhole é importante divulgar a actividade junto dos mais novos. “Uma das suas potencialidades é sensibilizar as camadas jovens para o tema da fotografia”, diz José Reis. No Instituto Português de Fotografia surgiu uma actividade extra-escolar ligada à fotografia estenopeica: o clube “Buraco de Agulha”, por iniciativa de António Leal. “Realizamos, já ao longo de vários anos, encontros, oficinas, exposições”, explica. Pedro Horta procura promover acções de dinamização cultural e social junto de escolas e associações. “Percebi que esta técnica era utilizada instrumentalmente como forma de intervenção social”, conta.
Por outro lado, também é comum a utilização das potencialidades da Internet para a divulgação deste tipo de arte fotográfica. António Leal, dada sua ligação profissional com a fotografia, mantém dois sites dedicados à pinhole, e outros que tratam a fotografia de modo mais geral. José Reis utiliza o seu blogue essencialmente para expor o seu trabalho. Já o de Pedro Horta “é um blogue com meia dúzia de visitas diárias”, confessa. “Faço-o essencialmente para mim. Contar aos outros o que fazemos, torna-nos mais exigentes para connosco próprios”.


Apenas com aquilo que somos, com aquilo que temos, podemos ser tudo aquilo que quisermos.”, Pedro Horta 
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Artigo por :

Mara Gonçalves
Atelier de Jornalismo
Ciências da Comunicação - Universidade Nova de Lisboa
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