sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Açores visto por um buraco de agulha...

A coisa começa a mexer.

Inserido no projecto mundial Time in a Can, lancei o desafio a algumas pessoas e entidades da Ilha Terceira, e do restante Arquipélago, de se fotografar, os Açores, com a técnica pinhole, obtendo as chamadas solargrafias.

Recordando: Pinhole é a técnica fotográfica mais simples, que permite fotografar com simples latas furadas com um buraco do tamanha do um alfinete. Solargrafia é uma técnica pinhole que permite obter uma fotografia que regista o movimento do sol durante meses ( podendo contudo ser de apenas um dia).

Trata-se de um projecto inovador, quer a nivel mundial ( tinha sido apenas feito uma vez no ambito de um doutoramento pela Tarja), mas completamente pioneiro nos Açores.

Neste momento todas as câmaras estão distribuídas e espalhadas pelos Açores, já estando a registar as imagens que depois serão digitalizadas em alta resolução e divulgadas. 

Serão imagens unicas, irrepetiveis e que darão uma visão das paisagens Açorianas totalmente diferentes daquelas que registamos com as máquinas convencionais, pois a par da fotografia normal teremos em fundo o movimento do Sol gravado durante 4 meses, até ao dia do Solsticio de Inverno.

Agradeço em especial:

Ao Prof Rogério da Academia da Juventude da Praia da Vitória
À Academia da Juventude da Praia da Vitória
À Associação Cultural Burra de Milho da Ilha Terceira
Ao Centro Cultural de Angra do Heroismo
e aos amigos do Prof. Rogério que foram na conversa.

Deixo assim, a imagem de uma das máquinas, em pleno registo solargráfico dos Açores.

Não é preciso dinheiro para se fazer coisas com piada. É preciso é haver vontade por parte das boas pessoas! 

Câmara Pinhole - Centro Cultural de Angra do Heroismo



quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Laboratório


Ainda está um Caos.

Pouco a pouco vou começar a carregar rolos, reveladores, papeis, nitratos e sulfitos, caixas de luz, tambores de revelação, aquecedores, sais, filmes, colas e plasticinas, bandejas e pipetas, medidas e termómetros, lâmpadas e filtros, guilhotinas e fixadores, pinças e luvas, água e funis.

Pouco a pouco se vai re-construindo.

A vida é de facto assim.

Eternamente.

domingo, 12 de agosto de 2012

Desafio - Concurso até dia 20 de Agosto

Tenho cinco câmaras estenopeicas para ceder, lançando um desafio:

As câmaras têm que ser colocadas até dia 20 de Agosto, algures na Ilha Terceira, ( ou numa outra ilha dos Açores) num local virado para Sul,  de forma a que não seja retirada do local por estranhos, e que, durante o inverno, aguente bem a chuvada. ( fita cola, debaixo de telha, numa varanda interior, num sitio alto, camuflada, etc. etc).

As câmaras serão entregues ( já com papel fotográfico) aos cinco primeiros que enviarem um mail para pedrohorta@yahoo.com a dizer que querem participar. Apenas se pedindo que após a instalação da câmara nos enviem um mail com as coordenadas ou localização aproximada. A quem participar será oferecido um curso de fotografia pinhole, para que percebam como funcionam as câmaras que vão levar.

Existe uma sexta câmara que será entregue a uma colectividade, associação ou grupo de jovens, idosos, mulheres, reformados, desempregados ou seja lá o que for, que deseje participar nesta iniciativa. A essa coletividade será oferecido um curso de fotografia para os seus utentes.

O objectivo é captar o movimento do sol até ao último dia do ano, bem como obter uma imagem da ilha, que registe imagem e tempo.

Os que conseguirem devolver a câmara nos primeiros dias do mês de janeiro de 2013, verão o seu trabalho ser divulgado internacionalmente e receberão uma imagem de alta definição da sua foto.

Esta iniciativa está inserida num projecto time in a can, no qual este blog participa.

O que esperam?

14 de Agosto de 2012 - 3 Câmaras solicitadas em entregues
15 de Agosto de 2012 - Mais uma câmara entregues

Faltam 2!



sábado, 11 de agosto de 2012

Lumentype II


Aqui ficam os resultados da experiência que vos falei em Lumentype I

















Aqui ficam as imagens obtidas . A Azul as que fora positivadas, a castanho as que estão conforme original. 

Papel Brovira, já há muito expirado e muito exposto à luz.


Como o Henry Talbot fazia...


Tal como prometido, deixo aqui o processo de Talbot...


Henry Talbot, contemporâneo de Daguerre, foi o responsável pelo processo de negativo-positivo, permitindo obter várias cópias do mesmo negativo.

Muito romanceado....ele fazia o seguinte:

Pegava na sua máquina fotográfica, à qual a muher chamava de "ratoeira" e colocava, no ponto oposto ao da lente uma folha de papel sensibilizada com cloreto de prata ( nitrato de prata com sal de cozinha, numa solução aquosa...ainda antes de se descobrir o processo de obter a mistura numa solução gelatinosa...muito mais sensivel).

Feito isto, deixava a sua máquina, durante trinta minutos com o obturador aberto virada para o que queria fotografar.

Mais ou menos como eu fiz:



Depois retirava o papel, e sem revelação, mas com uma fixação em água salgada ou iodeto de potássio, obtinha uma imagem.

Depois colocava essa imagem/fotografia em cima de outro papel salgado ( papel embebido na tal solução de cloreto de prata) e positivava a imagem.

O processo era simples: Se de inicio a luz (branca) escurecia o papel onde tocava ( preto), agora essa mesma zona preta, não deixava passar a luz para o novo papel, obtendo-se desta forma um positivo.

Mais ou menos como eu fiz

Vendo-se uma viatura mais próximo e uma casa do lado esquerdo, bem como um telhado do lado direito.

De facto é imperfeita. Mas gosto do estilo.

Quase que um abstracto que nos surpreende.

Hoje usei papel brovira, que utiliza brometo de prata. Em breve, quando o laboratório estiver instalado, irei tentar obter papeis salgados, na formula que Talbot usava, e recriar-se-á, o seu processo, tal como ele o fazia.





Solargrafia e como fazer uma câmara Pinhole.


O objectivo é fazer uma máquina pinhole, com apenas restos de coisas. Encontrei um pequeno parafuso e um camarão. Se encontrar uma pedra conseguirei fazer um pequeno furo na lata. Lembro que uma câmara pinhole, nada mais é do que uma caixa, ou lata, totalmente isolada da luz, excepto por um pequeno furo com menos de um milimetro ( isto grosso modo, pois existem câmaras pinhole que são feitas a partir de carros, hangares de avião...e cujo furo por onde entra a luz ( estenopo) é maior que um milimetro.

Existe uma relação optima entre a distancia do furo ao material sensível. Podem procurar programas na internet para fazer esses cálculos. Eu uso normalmente o f150 ( ou seja o furo é 150 vezes menor do que a distancia que vai dele até ao papel, neste caso o diâmetro da lata). O importante é saber o tamanho exacto do furo, para que se possa calcular com rigor o Fstop, e daí se conseguirem fazer cálculos precisos, sobre o tempo que deve demorar determinada exposição. Uma máquina f150, tirará uma fotografia em 7 vezes mais tempo do que uma máquina "normal" em f16.



Escolhe-se o centro da lata, para que o furo fique alinhado com o papel que depois se vai lá colocar ( pode ser filme, muito mais rápido)


Um pequeno furo, obtido com um parafuso velho e uma pedra vulcânica.


Visto por dentro. Tem 0,6 mm. o diâmetro de um alfinete de roupa.


Depois pinta-se o interior, para que a não haja luz a fazer ricochete dentro da lata, criando uma imagem mais desfocada.



Pinta-se por fora, por uma questão estética.


Coloca-se papel dentro da máquina. Neste caso estou a utilizar papel velho e já exposto à luz, pelo que não poderei usar reveladores. Assim posso manusear o papel com luz. Se fosse para usar com revelador, teria que o manusear sob luz vermelha, amarela ou verde, caso contrário ficaria negro quando em contacto com o revelador. Esta técnica, Solargrafia, vai misturar o lumentype, com pinhole. Procura-se assim obter uma imagem estenopeica, com papel fotográfico à boa maneira do Print-Out-Papers, de Henry Talbot  ( apesar que este usava uma máquina com lentes, muito mais rápida...mas sobre isso vos falarei amanhã), recorrendo apenas à forte luz do sol, que ira entrar dentro da câmara escura e literalmente queimar ( oxidar) o brometo de prata do papel brovira.


Coloquei então a tampa, e deixei ficar ao sol durante as 7 horas de luz que restavam.


E porque é que não vos mostro os resultados?
Porque tenho o scanner ainda empacotado algures na Ilha.... ( já econtrei o scanner!)
Mas que já vi que funcionou...já vi.



E tenho mais 5 máquinas já feitas...e muito papel para gastar.... Quem quiser é só aparecer.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Lumentype


Da última vez que estive na casa do meu pai, vim de lá, para além de um belo repasto e de uma boa pinga, com umas caixas de papel fotográfico expirado.

Isto já era bom. Mas o melhor foi quando vi que se tratava do velho papel Brovira, conhecido por se autodenominar o único papel exclusivamente constituído por Brometo de Prata.

Para os mais distraídos, (ou para quem agora aqui chega), com as coisas que aqui vão sendo ditas e trocadas e descobertas, relembro que o papel fotográfico, nada mais é do que uma emulsão ( gelatinosa) que contem os chamados haletos de prata.

Estes podem ser três.

 - Cloreto de Prata, resultante da mistura de nitrato de prata com sal de cozinha. Mais lento e utilizado inicialmente por Talbot nos seus papeis salgados.

- Brometo de Prata, resultante da mistura de Brometo de Potássio com Nitrato de Prata, mais rápido, mas usado normalmente com o haleto seguinte ou com o anterior, ou ainda, em algumas fórmulas, com uma mistura de ambos.

 - Iodeto de Prata, que foi usado inicialmente por Daguerre, sendo resultante da mistura de Iodeto de Potássio com Nitrato de Prata. Neste caso Daguerre fumegava directamente o Iodo nas placas de prata polidas e depois revelava com mercurio... Mas Bacquerel deu-nos a informação que estas emulsões podem ser reveladas com uma luz vermelha forte....num fenómeno ainda não completamente explicado.


Todos estes sais são sensíveis à luz e escurecem quando em contacto com ela. Desta forma, usando ou não revelador, poderemos obter uma imagem permanente, se depois fizermos uma lavagem especial do papel fotográfico com uma solução a 10% de Tiossulfato de Sódio, visto os haletos serem insolúveis na água ( o que foi uma dor de cabeça durante muitos anos).


Nesta experiência que hoje fiz, coloquei em contacto com papel brometo de prata, umas folhas de árvores aqui da Ilha Terceira. Deixei ficar ao Sol meia hora e depois retirei-me para um local escuro, para que o papel não continuasse a sofrer escurecimento.

Não vos mostro, por agora o resultado...porque tenho o digitalizador ainda dentro de um caixote que está algures...na Ilha.  Podem ver os resultados em Lumentype II.

Procurem no Blog por Talbot, Lumentype, Print Out Paper. Fala tudo do mesmo. A possibilidade de se obter uma imagem sem revelador, à boa maneira antiga.

Na página de livros, encontrarão as fórmulas para fazer emulsões, bem como outros links sobre a história da fotografia....nem sempre muito cientifica.

domingo, 5 de agosto de 2012

Ia de carro atrás das vacas....


Hoje trabalhei. Deu para avançar umas coisas que nos dias de semana são impedidas de ser concluídas pelos telefones que tocam....

E lá fomos nós, no carro que o vendedor alugou, porque o carro que vendeu pifou....

Passámos pelos Biscoitos e fomos ver o antigo posto de vigia da caça às baleias....parámos....e....não arrancámos.

A bomba de gasolina do carro que o vendedor alugou, porque o carro que vendeu pifou...tambem pifou.

E assim lá ficamos os 4. A ver o mar e a nossa vida a andar para trás.

De repente surge um casal acompanhado de um amiga que visitava os Açores.

Tentou empurrar, tentou que o carro pegasse...e nada.

Apesar de sair bem do planeado ofereceram-se para nos trazer para casa...lá foram eles e eu fiquei a ver se resolvia a coisa....apesar de estar a 20km de casa, e quase de noite.

Fiquei então parado na estrada com o carro pifado que o vendedor alugou em virtude do carro que vendeu ter pifado.

De repente, milagre! O carro voltou a funcionar!

Venho a acelarar atrás das vacas...quando uma procissão me obriga a desligar o carro.

Não gosto do estilo, mas respeito a opção de cada um.

E assim, lá desliguei o carro, fiquei de pé, a aguardar que viesse a confraria, o povo, o padre a Santa, o Santo, e por fim o povo mais pobre, e a banda....


E já estão a ver....

Volta a pifar o carro que, etc, etc....

Mas de repente, passados cinco minutos outro milagre.....volta a funcionar!



E lá venho eu a acelarar atrás das vacas.

Chego a casa mesmo a tempo de ainda agradecer aos incógnitos benfeitores que entretanto esperaram a minha chegada.

Boa gente. Obrigado!




sábado, 4 de agosto de 2012

Oficina de Luz


Apesar de provisoriamente instalado, enquanto a coisa não se resolve, decidi reservar um pequeno canto da casa para colocar as minhas caixas, filmes, cartolinas, colas, tesouras...

Vai-se assim fazendo estranhas máquinas com as quais se grava a realidade recorrendo à ajuda do Sol e mais uns quantos processos quimicos.

Está, como todas as Oficinas da Luz, aberta a todos e todas que queiram aprender, ensinar, partilhar experiências, ou simplesmente ficar a ver....


Porque não Lomo?





Hoje fomos dar uma volta pelas festas da Praia da Vitória.
Levámos algum dinheiro no bolso para eventuais gastos, que acabou bem investido em donuts, borboletas de flor, 2 coca-colas, 1 Iced Tea.

O pequeno João, cansado, decidiu pedir-nos, à sua maneira, para nos irmos embora.
E nós fomos, porque a sua maneira de pedir as coisas atinge decerto  e directamente um ponto qualquer no cérebro primitivo dos pais, que (n)os obriga a aceitar.

Mas levei também, não as normais caixas de cartão para tirar fotografias ( porque ainda se encontram encaixotadas ( parece redundância, mas é tristeza), mas uma aplicação simples, para Android que descarreguei gratuitamente nesta manhã.

Trata-se do aplicativo Lomo Camera App para Android que pode ser descarregado no Market para Android,


 
Muito interessante, utiliza a câmara do telemóvel para tirar fotografias de acordo com as caracteristicas de algumas câmaras Lomo, juntando ainda a possibilidade de se escolher a emulsão ou o tipo de negativo.

Mais interessante seria mesmo comprar uma lomo verdadeira, das várias que encontramos no mercado sendo algumas pinhole. ( ver em www.lomografiaportugal.com)


O conceito de câmara barata de plástico, extremamente bem conseguida do ponto de vista criativo, torna as lomo num estágio intermédio do conceito de fotografia alternativa.

Algo que se sabe ser diferente, mais nihilista, mais imprevisto.

Eu continuo a preferir construir as minhas máquinas de latas de leite, sardinha, caixas de sapatos...mas devo confessar que o conceito lomo ( algumas lomo são pinhole), me atrai bastante.

Talvez um desafio para quem está agarrado ao digital, mas sente que tal não satisfaz e pretende embrenhar-se nas coisas da foto-grafia de forma mais intimista....

O que acham?

Devo-vos dizer que não ganho nada com esta postagem....mas tinha de retribuir a satisfação que me deu obter estas fotografias da Festa da Praia, com um simples aplicativo gratuito.

Já agora, mesmo que não gostem de lomo, e caixas de sapato e nihilistas e malucos...passem na Praia da Vitória...há de tudo....como na feira.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Ainda chega o Inverno antes do tempo

Com tanto sol para deitar os seus raios actinicos sobre qualquer emulsão que em tempo útil a eles reaja.....

Com tanto sol para beber uma cervejita, mesmo naquele ponto em que o dia se cruza com a noite.

Com tanto sol para aquecer, quem anda com frio.

Anda um gajo....
A carregar malas, descarregar malas, mudar de casa, volta a mudar de casa, ainda outra vez a mudar de casa, mudar de terra, sem dormir, a fazer fretes, sem carro, sem televisão, em consultas, em biberões, em vazios, em sonos diurnos, em fraldas, sem subsidios, com crises....

Com isto tudo chega ao Inverno, lá se vai o sol e um gajo está na mesma.

Ao menos...o que tem de bom...é que tudo isto vale a pena. 

É que as coisas que leio sempre me ensinaram que com tanto Caos, a coisa ainda acaba em Nova Ordem.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Bruxas...

Ao passear no campo, encontrei 6 bruxas. Duas mais velhas recolhiam ervas, enquanto 4 mais novas aprendiam a distinguir as boas das más, as que curam, das que envenenam....Talvez hoje se pense que se trata de um simples passeio pelo campo em família....mas na verdade é um ritual antigo e já perdido....

segunda-feira, 28 de maio de 2012

O gajo do Pau




Há uns dias, numa animada conversa com um amigo meu, entendido nas coisas da psique, este falava-me de um facto recorrendo à imagem do Homem do Pau.

Eu já conhecia a do puto da bola. 
Aquele miúdo, que todos nós conhecemos, que quando perdia, ou não o deixávamos jogar onde queria, metia a bola debaixo do braço e lá ia resmungando certo da sua propriedade, impedindo os outros de jogar.

Mas esta do tipo de pau deixou-me interessado.

O Tipo de Pau é o fulano, pequeno e fraco, complexado, que de repente obtém o poder.

E em vez de administrar a sua força (leiam o primeiro capitulo do Moral e Dogma do Albert Pike, sobre a força do vapor e a sua utilidade) com vista à ordem desata à paulada com os outros. 

Recebe um pau, com o qual pode dar umas pauladas.

E assim, de repente torna-se grande, e vá de mandar pauladas nos outros.

Dá uma paulada e observa o efeito. E normalmente, habituado que está a curvar-se e a ver-se pequeno, gosta do que vê. 

E repete, repete...até o pau se partir, ou até estar sozinho. Voltando a ser outra vez um pequeno, digno de um livro de Aldous Huxley.

Eu tenho medo dos gajos do pau.

A propósito desta história lembrei-me de uma outra e imaginei ainda outra:

Quando era pequeno e tinha consciência política, defendia sempre, e para margem de qualquer duvida, os miseráveis, os pobres, os desempregados. E achava que todos eram bons. 

E todos os dias observava o cantoneiro que passava na minha rua, com ar infeliz, cabisbaixo, possivelmente com miúdos para criar. 

Pobre homem.... se um dia este homem tivesse poder o mundo seria diferente....

Assim pensava na minha infância.

Mas um dia vejo que o cantoneiro tinha um ajudante. Um pobre rapaz, da CERCI lá da terra, ainda mais miserável do que ele, limitado no entendimento, ainda mais inocente e puro do que o cantoneiro (estranho como a pureza ocupa o espaço deixado livre pela racionalidade).

Observei.

E ai vi que o cantoneiro assumia agora a posição de chefe, de lider....do puto. Agora tinha poder ( se fosse hoje...agora tinha um pau).

E tratava mal o puto. Humilhava-o, explorava-o....Enfim dava-lhe umas pauladas.

E muita coisa mudou na minha consciência, o que, por várias razões, não vem agora para o caso.


Há coisa de dias (horas?)  imaginei, depois de ter recordado a conversa com o meu amigo da psique, e de me ter lembrado do sacana do cantoneiro, a seguinte imagem surreal:

Estava o Miguel Ângelo a pintar uma parede. Utilizava as mais requintadas tintas e, mestre que era, pintava ...como só os mestres sabem fazer.

De repente....salta do talho em frente, o talhante, porco, pequeno, com um cutelo a vociferar contra o Miguel Ângelo que lhe estava a estragar a parede, que aquilo era uma porcaria....

O bom do Miguel Ângelo foge, como pode, sem olhar para trás.

Para uns, o Miguel Ângelo fugiu porque fora apanhado a fazer asneira.
Para outros o homem do talho era um critico de arte entendido que o desarmou, tendo o Miguel Ângelo fugido por vergonha.

Para mim.....era um simples homem do Pau....

com esses....não argumentem....fujam!



domingo, 13 de maio de 2012

Solargrafia nos Açores - projecto alternativo

Direitos Reservados @Diego


Dentro em breve, pelos Açores, serão espalhadas e escondidas 5 latas contendo no seu interior papel fotográfico.

Até ao final de 2012 ficarão viradas para Sul, captando, à maneira dos Print-Out-Paper, o movimento aparente do sol, bem como da paisagem envolvente.

É um processo simples, que conjuga o fenómeno da criação da imagem através do estenopo, com a redução directa dos sais de prata pela acção, saturada, dos raios ultravioletas.

Desta forma surgem, sem necessidade de reveladores, imagens no papel colocado no seu interior, que, sendo digitalizados ( a fixação torna-se inconveniente porque ocorre uma lavagem de sais de prata não completamente reduzidos e torna a imagem muito clara) permitem a visualização de imagens interessantes, como a da fotografia desta postagem.

Outro fenómeno estranho é que os sais de prata, quando expostos desta forma, criam imagens coloridas, que, mais uma vez, são anuladas, quando sujeitos à acção da solução de Tiossulfato de Sódio.

Obtemos assim imagens coloridas em papeis fotográficos Preto e Branco, recriando os primeiros passos que desde 1800 se fizeram na tentativa de se obter fotografias a cores.

A Solargrafia é assim uma forma de entendermos conceitos tão dispares como:

O Estenopo
O material sensivel
Os papeis POP e DOP
O revelador
O fixador
A questão da fotografia colorida
A Câmara escura

Fazendo desta forma um passeio pela história da fotografia.

Este projecto vai ser inserido numa iniciativa internacional que decorre sob égide de conceituado fotografo alternativo que amavelmente nos convidou a participar.

Localmente vou dinamizá-lo com auxilio do Laboratório Experimental que está a ser instalado no Clube de Oficiais da Base Aérea n.º 4, recorrendo à ajuda dos pequenos-grandes fotógrafos, que assim irão mostrar ao mundo a sua visão do seu espaço, através de uma fotografia que em vez dos normais 1/125 segundos vai demorar 15.552.000 de segundos, obtendo imagem e tempo numa pequena lata.

Para mais informações consultem o site:

http://timeinacan.org





terça-feira, 8 de maio de 2012

A Obra





 

Começarás por criar o Nada,

Abrirás depois uma porta
entre o dentro e o fora.

Apenas uma singularidade.

Por ela o dentro comunicará
com o fora e o fora com o dentro.
deixará então
de ser nada,

Criaste o Útero
Fértil ficará com a Lua.

Deixa entrar o Ouro.

Terás então unido o activo
com passivo.

A obra está agora concebida.

Gestará com o básico
Passarás pelo ácido

Lavarás com o sal

Se preserveraste, terminaste
a tua Obra.

E assim se explica a via fotografica.

Gustavo Urbano, MM

Isto tem andado parado


Ainda um pouco azamboado com o facto de ter metido a vida em caixotes que guardo em estranho armazem, mal forças tenho para os abrir de novo e começar a recontinuar a vida por estes lados.

Por isso não tenho tido à mão os reveladores, quebrantos e quejandos e outras banhas que vou fazendo com aquilo que mais ninguem quer. 

Ando...por assim dizer...(esta frase tem direitos de autor de um colega)...a modos que parado.

Talvez porque tenha metido mais do que livros e sais dentro dos caixotes. 

Talvez porque um pouco de mim ainda esteja lá dentro, à espera da oportunidade para, tirada a fita-cola forte que me fecha, volte a ser colocado no lugar que  reconheço como meu.

Talvez por isso.

Porque fotografar apenas exige uma caixa de madeira (como a que está na foto), papel fotográfico velho (mesmo fora de prazo e vendido ao desbarato ou até ofertado) e um pouco de café e detergente da roupa ou outro alcalinizante

...ou até menos.


 Desta forma não se justifica, pela ausência de materiais, a ausência de acções. 

Ora se tenho escopo e não talho a pedra...é porque, provavelmente, me falta o cinzel.

Mas pouco a pouco, vou reconstruindo o meu locus.


Esta é a fotografia da máquina que agora preparei para fotograr este canto de mar.

Em breve finalizar-se-ão as obras de um pequeno espaço destinado a ser instalado um laboratório experimental.

Tudo boas noticias para um regresso em busca da Luz.

Porque ela brilha...mesmo na obscuridade mais profunda

...e desde que haja um furo por onde ela passe e vá encontrar um material sensivel, será possivel guardar a sua memória para sempre.



sábado, 24 de março de 2012

Por estranho que pareça.




Parti cedo. Não tão cedo como gostaria, mas o suficiente para ser de manhã cedo.

Velhos sapatos, velha mochila.

Destino certo, caminho incerto.

A medo, sem saber quando chegaria, percorri campos verdes e estradas velhas.

De repente chego à praia. Mais depressa do que julgara.

Passeio por entre casas, cores e cheiros que não conhecia.

O peso do corpo magoa-me os pés e decido parar.

Na mochila uma lata dos americanos faz as honras do almoço.

Escolho um canto à beira-mar e instalo-me.

Sinto-me observado. Demasiado.

Olho para o lado e vejo uma placa na parede que as minhas diopetrias me impedem de ler.

Aproximo-me.

Começo a chorar.


Desde pequeno que ouvira falar do meu tio Santos Barros que era dos Açores, casado com a minha tia Ivone Chinita e que morrera, juntamente com ela quando era eu pequeno.
 

Nunca pensei em o encontrar, ali, sozinho, a olhar eternamente o mar.


E muito menos que me tivesse chamado para consigo almoçar.



Almoçámos e parti. Demasiado cedo.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Novas Tecnologias

Esta é uma postagem feita de um android, com uma imagem tirada com uma lente e uma placa cmos (ou seja, uma fotografia de telemovel).
Em breve mudarei de ares, partindo para o meio do oceano atlântico.
Pouco levarei, mas concerteza que de entre os parcos haveres se achará uma caixa de cartão.


domingo, 18 de dezembro de 2011

Com uma caixa de fósforos



De uma caixa de fósforos fiz uma pequena máquina de cartão,
e com a ajuda da minha filhota fiz esta postagem.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Água de Hortelã II

Depois de ter obtido um litro e meio de água de Hortelã, deixei repousar na curcubita 2 litros de infusão que não foi a destilar.

Num vaso coloquei 2 dl desta infusão.
Medi o PH, tendo obtido aproximadamente o valor de 8.
Adicionei então duas colheres de café de Carbonato de Sódio Anidro.
Voltei a medir o PH tendo obtido 11.
Temperatura de 14 Cº.

Mergulhei na mesma um papel de brometo de prata fortemente exposto à luz.


Em 30 segundos observei que a parte mergulhada tinha sido reduzida a prata metalica, obtendo assim uma revelação da mesma.


É um revelador à base de Hortelã da Ribeira. O Hortol.



A explicação para este facto já foi explanada neste Blog. Um revelador nada mais é do que um redutor em meio alcalino.
A Hortelã da Ribeira terá deixado verter através da fervura, algum óleo ou essência com características redutoras. Bastou depois tornar a solução fortemente alcalina para esse principio poder agir sobre o brometo de prata, reduzindo a prata ao seu estado metálico....preta.


sábado, 10 de dezembro de 2011

Água de Hortelã



Enquanto o sono não chega, tento obter água de Hortelã da Ribeira através de destilação.

Proponho-me obter um litro e meio.

Juntarei-a então à água de Eucalipto que repousa à minha frente.

...por sorte tenho aqui um frasquinho que está desejoso para ser oferecido.... (só entrego em Beja que não quero os correios com cheiro a mentol).



( daqui a uns minutos vou tentar deixar um vídeo da coisa) 


Ora aqui está ele.







quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

O meu tempo

Solargraphy/Solargrafia em papel Agfa

Da minha varanda vejo todo um mundo lá fora

...o Sol que volta sempre por caminhos diferentes,
...as acácias que ao vento que se anunciam como borrões de prata,
...o velho carro que ali jaz,

Nada disto veria com o meu tempo, foi preciso esperar.


Habituados que estamos à nossa medida, tornam-nos cegos para o que está acima ou abaixo.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Domingo


Pai: A Margarida não acredita que és cientista. Vamos fazer experiências.

Olho para todo o lado e penso rapidamente em como não desiludir nem a filha nem a amiga. 

Começo por pegar em carbonato de sódio e vinagre e ensaio uma poção "espumosa". Cativo a atenção.

Pego então numa caixa de sapatos e transformo-a, com a ajuda delas, numa fantástica caixa de sapatos... que tira fotografias.

Saímos.

Durante 20 minutos deixamos as caixas (levei mais uma pelo sim pelo não) a beber luz.

Brincamos. Voltamos. (Esqueço-me do casaco numa baliza....quando voltei já era tarde)

Vamos para o laboratório.
O revelador estava estragado....rapidamente deito num copo vitamina C e detergente da roupa....

Abrimos as caixas....metemos naquela água mágica....e pouco a pouco surgem árvores e balizas.....

A Margarida já acreditava que o pai da Beatriz era cientista. 







sábado, 22 de outubro de 2011

Por Magia...aconteceu


No passado dia 15 foi organizado um dia diferente para os miúdos e graúdos de Beja.


Escrita de Luz, um conceito de Workshop, adaptado para encontro informal de fim-de-semana.
Partindo de um desafio simples, mas aparentemente impossível ( tirar fotografias com caixas de papelão), mais de vinte amigos, entre pais, filhos, tios, educadores, juntaram-se no Clube de Oficiais da Cidade de Beja.

A coisa prometia. E eu estava nervoso. Fazer um Workshop para graúdos é diferente do que cativar 15 miúdos um dia inteiro...ou talvez não.

Uma mesa repleta de caixas, folhas pintadas com substâncias mágicas, fita cola, tesouras, cartolinas, tintas, papel de lustro....e nós à volta.



Começámos por compreender que o Homem, já desde o tempo das cavernas que se apercebeu que a luz do sol altera, pela sua acção, os materiais....nomeadamente a sua pele.

E passámos a acreditar piamente que foi nessa altura que começaram as experiencias que mais tarde levariam à invenção da Fotografia por Niépce.

Decerto que o Homem das Cavernas terá colocado folhas e cordas na sua pele para criar motivos estéticos....e se não o fez...podia ter feito que era bonito.


Foi assim mais fácil explicar que a fotografia só foi inventada porque o Homem gosta de desenhar, mas porque ao mesmo tempo também é preguiçoso....e foi por isso sempre tentou arranjar uma forma de desenhar rapidamente e sem esforço.

Criou assim umas tintas que se alteravam quando em contacto com a luz do Sol, bastando desta forma colocar folhas, desenhos, mapas, em cima dela para criar imagens....com o mínimo esforço.

E eu tinha umas folhas dessas escondidas há muito tempo.....
Há espera de encontrar um grupo de miúdos espertos.

Dividimos o grupo inicial em três e iniciamos o trabalho de descoberta dos cianotipos, enquanto forma de reprodução por contacto directo.

(quem não se lembra dos velhos mapas azuis das minas...nunca ninguém se questiounou o porquê de tal cor?)


Os grupos baptizaram-se então de:

Grupo das Cavernas;
A Tribo;
Os Primitivos;

Colocámos imagens, folhas e objectos por cima dos papeis mágicos ( com tintura obtida,em partes iguais, de uma solução de 25% de Citrato Ferrico Amonical e outra de 10 % de Ferricianeto de Potássio).

Fomos para o Sol e esperámos 20 minutos. Observando com atenção tudo que se passava....ou então correndo em cima da relva. Porque cada um se diverte como quer.












De seguida voltámos para dentro e lavámos com água ou vinagre ( para se perceber a diferença entre a lavagem em solução neutra ou ácida) e oxidámos com água oxigenada.







Os cianótipos passaram de uma cor amarelada, para verde e por fim acastanhada.

Após lavagem adquiriram a cor Azul da Prússia.

Estava explicado (ou melhor...demonstrado ) o principio da sensibilidade dos materiais à luz....bem como a cor dos mapas das minas.


Depois fomos almoçar e brincar. 
Entre frangos, massas, sopas, sumos, gelatinas, jogos de bilhar, trambolhões, música, dedos nos olhos....a coisa correu bem.



Voltámos ao trabalho.  Percebemos então que enquanto uns Homens-Preguiçosos inventavam tinturas cada vez mais rápidas para que reagissem ao sol em segundos (porque o homem é preguiçoso...mas também nunca tem tempo)....outros inventavam umas máquinas de desenho que ao serem apontadas para uma imagem, projectavam-na num pequeno vidro despolido, sendo então mais fácil desenhar por cima.




( Para quem se interessar sobre a história da Câmara Obscura veja aqui )


E assim, houve logo alguém que disse que bastava meter o nosso papel mágico em cima, para que fosse formada uma fotografia....miúdo esperto!

Claro. Foi isso que fez Niépce, no Verão de 1826.  (porque era esperto, mas também porque não conseguia desenhar mesmo com a tal máquina de desenho).

E foi o que fizémos.

Começamos a construir máquinas com caixas de sapatos, sem lentes, apenas com recurso a uma agulha com cerca de um milimetro de diâmetro.

E porquê com um furo? 
Porque se em vez de termos uma lente, colocarmos um pequeno furo, a luz ao passar por ele formará uma imagem na parede oposta. E se em tal parede estiver um papel fotográfico ( a última moda e invenção das tinturas mágicas), então teremos uma fotografia.



Iniciámos então a construção. Isolámos muito bem o interior, para que não entrasse nenhuma luz. Depois fizemos um furo na tampa e medimos a distância entre a tampa e o fundo da caixa. (fstop = Distancia/Diametro).


Foi dada então uma tabela para se encontrar o tempo ideal para se fotografar ao sol e à sombra....e lá fomos.





mil e um, mil e dois, mil e três.....já está. Uns contavam mais depressa, outros andavam com a caixa de um lado para o outro....mas algo haveria de ficar.

Hora de regressar.

Foi por fim explicado que as nossas fotografias para aparecerem, precisavam de uma poção mãgica ou senão era apenas um papel branco.

Foi feita uma poção secreta, chamada Revelador com 5 colheres de cafe, 4 colheres de detergente da roupa e um colher de vitamina C ( colheres de chá) e meio litro de água. (chamado Caffenol C).
E foi dito que a outra poção, chamada Fixador, era mais perigosa e que era necessária para podermos trazer as nossas fotografias para a luz sem que se estragassem. (solução de 15% de Tiossultafo de Sódio)

Entrámos no Laboratório e saímos contentes, magicamente resultara, tal como tudo o que é feito com Amor.



Tinha sido uma tarde diferente, entre pais, filhos, amigos e educadores.


Querem repetir?